quarta-feira, 8 de abril de 2015

Temer diz que Dilma lhe fez apelo, não convite (Josias de Souza)


Em conversa que entrou pela madrugada desta quarta-feira, o vice-presidente Michel Temer disse aos principais caciques do PMDB que Dilma Rousseff não lhe fez propriamente um convite, mas um apelo dramático para que assumisse a coordenação política do governo.
Temer contou ter sugerido a Dilma que escolhesse outro nome depois que o peemedebista Eliseu Padilha refugara a missão. Mas a presidente insistiu. Argumentou que Temer teria de aceitar, sob pena de deixá-la mal. “Não tive alternativa”, declarou Temer aos correligionários, recebidos para o jantar no Palácio do Jaburu, sua residência oficial.
O vice-presidente falava de um fato consumado. O Planalto já havia soltado uma nota sobre a novidade. O chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, já dera entrevista coletiva. Mas Temer ruminava dúvidas. Além das incertezas naturais quanto às chances de êxito da empreitada que acabara de assumir, ele hesitava quanto à forma.
Afastada, por inusitada, a hipótese de Temer tornar-se ministro, ficara combinado que Dilma extinguiria a pasta das Relações Institucionais e providenciaria uma designação formal para que o vice-presidente passasse a se ocupar do relacionamento com o Congresso.
Na conversa do Jaburu, correligionários de Temer questionaram esse modelo. Recordou-se que a extinção de um ministério não depende apenas da vontade da presidente da República. Criadas por lei, as pastas só podem deixar de existir se for aprovada outra lei no Congresso.
Ponderou-se a Temer, de resto, que a designação de Dilma seria imprópria, já que colocaria o vice na incômoda condição de subordinado da presidente. As atribuições do vice-presidente estão previstas na Constituição. Qualquer acréscimo exigiria decisão do Legislativo.
Sensibilizado com argumentos, Temer pediu uma nova conversa com Dilma. Embora já estivesse recolhida ao palácio residencial do Alvorada, ela o recebeu. Num diálogo testemunhado pelo senador Jader Barbalho (PMDB-PA), Temer dispensou a extinção da pasta das Relações Institucionais e também a “designação” que Dilma ficara de providenciar.
Na nova combinação, Temer exercerá as atribuições de coordenador político exatamente como já vinha fazendo sempre que acionado. A diferença é que agora ele atuará em tempo integral, supostamente sem interferência de personagens como o ministro Aloizio Mercadante.
De volta ao Jaburu, Temer e Jader encontraram um quórum maior. Lá estavam, entre outros, Renan Calheiros, Eduardo Cunha, Henrique Eduardo Alves, Eduardo Braga, Geddel Veira Lima, Moreira Franco e até Eliseu Padilha, o personagem que recusara o convite de Dilma para substituir o pseudo-coordenador Pepe Vargas.
No relato feito por Temer, logo que foi informada, em termos finais, de que Eliseu Padilha não assumiria a coordenação política, Dilma pediu alguns minutos para pensar. Voltaria à carga esgrimindo a fórmula que acomodou a encrenca no colo de Temer.
Os peemedebistas reunidos no Jaburu suspeitam que os minutos requisitados por Dilma serviram para que ela tocasse o telefone para Lula. Nessa suposição, a ideia de mobilizar Temer teria partido não de Dilma, mas do conselheiro político dela.

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