segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Brasil na capa da Newsweek: 'Não mexa com a Dilma'

Sérgio Lima/Folha
A revista americana ‘Newsweek’ dedica a capa de sua última edição a Dilma Rousseff. De autoria do repórter Mac Margolis, o texto flerta com o laudatório. Os louvores começam na capa –uma Dilma de braços abertos, como que preparando-se para abraçar o título: "Onde as mulheres estão vencendo."
Prossegue no interior da revista. Ali, um texto intulado “Não mexa com Dilma” traz um positivo perfil-entrevista da presidente brasileira. Em meio a declarações de Dilma, a notícia fala de um Brasil economicamente bem posto, submetido a uma mulher de passado épico e presente exitoso.
A notícia abre com uma passagem da disputa presidencial de 2010. Deu-se no alvorecer da campanha, num aeroporto. Uma mulher e sua filha achegaram-se a Dilma. A menina, que se chamava Vitória, inquiriu: “Uma mulher pode ser presidente?” E Dilma: “Ela pode.”
Dilma contou que, quando criança, queria ser bailarina ou bombeira. Hoje, acha que “o mundo está mudando.” Viu na pergunta da menina Vitória um “sinal de progresso”. A revista endossou-a: “Para aqueles que duvidam, a Assembléia Geral da ONU que se reúne em Nova York nesta semana é o retrato da nova ordem mundial.”
Dilma escalará a tribuna, realça a notícia, na condição de primeira mulher a abrir a assembléia anual da ONU. Deve-se a primazia a uma praxe, não às saias de Dilma. Os mandatários brasileiros são escalados para o discurso inaugural desde que a ONU foi fundada.
“Hillary Clinton estará lá”, escreve a Newsweek. “Angela Merkel, a primeira-ministra alemã, também.” A revista considera “mais marcante” o fato de que, entre as 20 mulheres que comandam nações atualmente, quatro serem das Américas.
Além de Dilma, Cristina Kirchner (Argentina), Laura Chincilla (Costa Rica) e Kamla Persad-Bissessar (Trinidade e Tobago).
“A aprovação de Lula pode ter ajudado na eleição de Dilma”, o repórter de Newaweek admite. “Mas gerir a mais indomável democracia da América Latina exige mais do que um patrono poderoso”, ele pondera.
Lula escorou o seu sucesso, diz o texto, na combinação de “conservadorismo econômico com agressividade nos gastos sociais.” Serviu-se, de resto, do boom das commodities e do excesso de liquidez que rondava o mercado internacional à procura de bons negócios e porto seguro.
Dilma mantém a fé nessas políticas que serviram de “almofada” para atenuar os efeitos da crise global de 2008 sobre o Brasil. Agora, com a presidência assediada por nova crise, Dilma repetiu para a revista coisas que vem dizendo à imprensa do Brasil.
"Nós sabemos que não somos uma ilha. Eu abro o jornal e leio sobre isso todo dia. A Grécia não pode pagar seu socorro. A Espanha está em apuros. A Itália também. Os EUA não estão crescendo. Isso tem um impacto negative no resto do mundo.” Após breve pausa, Dilma perguntou ao repórter:
"Você sabe a diferença entre o Brasil e o resto do mundo?” Ao responder, Dilma apresentou como vantagem o que antes via como problema: os juros lunares.
“Temos todos os instrumentos intactos para combater o crescimento lento ou mesmo a estagnação da economia mundial. Nós ainda podemos cortar as taxas de juros, enquanto outros países não podem, porque suas taxas já se aproximam de zero.”
Dilma mencionou outras diferenças: "Somos uma grande economia, rica em recursos e com um mercado interno enorme." Atribuiu a pujança às “políticas sociais” que içaram “40 milhões de pessoas da pobreza” para a “classe media, desde 2003.”
Esse contingente, disse ela, equivale “a uma Argentina. A demanda doméstica ficou tão reprimida por tanto tempo que temos um imenso potencial de crescimento. Temos um boom da construção, mas não uma bolha. Esse mercado interno nos permitirá acelerar o crescimento".
A revista, de novo, corrobora Dilma. Informa que o Brasil vem de um crescimento de 7,5% em 2010. Estima que o PIB de 2011 terá um tônico “respeitável” –algo entre 3% e 3,5%. Enquanto as nações ricas lutam para evitar uma “dupla recessão, o Brasil tenta esfriar sua ardente economia”.
O texto recorda que Dilma não perde oportunidade para enaltecer Lula. Mas anota que ela jamais foi a política “inocente” que seus rivais pintaram. “Pergunte a José Serra”, sugere Newaweek. Há um ano, diz a reportage, Serra chamara Dilma de “envelope vazio”. E ela “surrou-o na eleição.”
Dilma é vendida como presidente trabalhadora de “pavio curto”. Silencia auxiliares. Leva-os às lágrimas. Reproduzem-se frases elogiosas de empresários e do economista Delfim Netto. São emolduradas por um comentário do marqueteiro João Santana: “A Dilma é a nova cara do Brasil –confiante em si mesma, menos preocupada em agradar, generosa sem ser bajuladora. Ela conhece o seu valor.”
Do passado militante de Dilma, a revista recorda a passagem pelos porões da ditadura, os choques elétricos, a pancadaria, o pau-de-arara. Ela não se vergou, diz o texto. Dava aos algozes “falsos nomes e pistas”.
A Dilma da Newsweek mantém “em grande medida sob controle” a coalizão “rebelde” que a sustenta no Congresso. Resiste às demandas fisiológicas. Converte denúncias de corrupção em vitórias políticas. Livra-se dos auxiliares “enodoados” que lhe haviam sido “impostos” e cerca-se de confidentes de saias. Entre elas Gleisi Hoffmann e Ideli Salvatti. Instala um “matriarcado no curacao macho de Brasília”.
Até Lula, diz a revista, começa a render-se. Citou-se uma frase dele: “Quatro anos não é suficiente para alguém que vai governar por oito anos”, . De uma “presidente por procuração”, sustenta a Newsweek, Dilma converteu-se em “política-alfa”.

Escrito por Josias de Souza às 04h39
 

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